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A Lanterna Mágica

o cinema começa com a lanterna mágica.

A Lanterna Mágica

o cinema começa com a lanterna mágica.

E o Óscar vai (devia de ir) para...

Sou suspeito, todos somos. O cinema é a arte da subjectividade, da forma como uma história tem reflexo (ou não) na pessoa que somos. E por isso nada é garantido, tudo é sentido. Especialmente nos filmes que é suposto fazerem alguma diferença. É seguindo esta máxima que escolho aqui os que vejo com mais potencial de ganharem o Óscar e aqueles pelos quais vou estar a torcer para que vençam.

 

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Melhor Filme
Vai ganhar: La La Land - É um musical com bons momentos mas vale mais como filme em geral do que apenas como musical. É uma história bem mais simples, centrada em menos personagens e ao mesmo tempo mais densa do que muitos musicais recentes. Num ano onde não há um vencedor óbvio no género mais típico a vencer o melhor filme, o drama, La La Land é diferente e peculiar e tem (quase) tudo para ganhar mas dizem que Moonlight está à espreita (pessoalmente achei que tinha partes incríveis mas desiludiu-me um pouco a nível de história a certa altura - queria mais enredo/narrativa - e como um todo achei menos brilhante por isso).

 

Devia ganharManchester by the Sea - Senti uma espécie de murro no estômago ao ver o filme e acho que é de uma intensidade dramática incrível, com uma história muito simples. Acho normal e aceitável que não vença e sentir-me-ei satisfeito com o Óscar de melhor realizador para Kenneth Lonergan. Tenho um carinho especial por Lion e mesmo admitindo que não é filme que encha as medidas da Academia, encheu-me as medidas a mim de uma forma a certa altura avassaladora. Também sinto 'love' por Vedações e Hacksaw Ridge (neste último mais porque é incrível ver Mel Gibson a continuar a reinventar-se com novas e intensas histórias bem contadas). Não percebo como Elementos Secretos está nomeado. 

 

Melhor Realizador
Vai ganhar: Damien Chazelle, por La La Land - Não é nada certo que ganhe mas há sinais nesse sentido. Se Moonlight ganhar o melhor filme parece-me certo que Chazelle ganha este, tal como o inverso também é provável embora eu espere que não aconteça.

Devia ganhar: Kenneth Lonergan, por Manchester by the SeaChazelle tem um trabalho incrível em La La Land e Moonlight também tem partes excelentes (embora para mim tenha depois limitações) mas o meu favorito é o trabalho de Lonergan em Manchester by the Sea. Há muito tempo que não via o trabalho de um realizador e editor ser tão determinante na forma brutal como recebemos sentimentos de uma personagem. Os momentos mais dolorosos e incríveis são sem diálogo, num jogo entre música clássica e as personagens/actores a 'sentirem' a dor. Fiquei surpreendido pelo bom trabalho de Denzel Washington em Vedação, não esperava. E Arrival também é especial a nível de realização, sem esquecer de Mel Gibson está como peixe na água no filme de acção do ano, Hacksaw Ridge.

 

Melhor Ator
Vai ganhar e devia ganhar: Casey Affleck, em Manchester by the Sea - Casey Affleck já tinha mostrado ser um actor denso noutra ocasiões mas nunca tanto como agora. Há uma simbiose entre a interpretação dele, a história que se conta e a realização e edição raras e não só é o favorito em geral como é o meu favorito. Menção honrosa para Denzel Washington em Vedações e para Viggo Mortensen em Capitão Fantástico. Andrew Garfield também está no ponto em Hacksaw Ridge (acabo por gostar mais dele aqui do que em Silêncio) e Ryan Gosling, sorrisos matreiros à parte, também me surpreendeu em La La Land mas não o suficiente para ganhar (nem sei se o nomearia). 

 

Melhor Atriz
Vai ganhar e devia ganhar: Emma Stone, em 
La La Land - Estou em falta nesta categoria. Não vi Meryl Streep em Florence Foster Jenkins nem Isabelle Huppert em Elle. Mas pelos trailers, entrevistas e outros textos que li, veria com bons olhos Isabelle Huppert vencer em vez de Emma (um reconhecimento também de carreira). A Emma Stone já teve grandes papéis e segue essa linha em La La Land, suportando em muitos momentos o filme - sorte a de Chazelle e Gosling. Entre o vulnerável e o confiante, ela está lá.


Melhor Ator Secundário
Jeff Bridges, em Hell or High Water
Vai ganhar e devia ganhar: Mahershala Ali, em Moonlight - Que interpretação de um actor que tive o prazer de conhecer e que fez do traficante de droga cubano Juan não só uma personagem densa e convincente (numa interpretação sensível e sem excessos) mas também alguém com quem criamos uma empatia peculiar. Menção honrosa para Dev Patel - finalmente um papel no cinema a mostrar o que ele é capaz - e para Michael Shannon em Animais Nocturnos (está incrível entre o polícia duro mas que esconde bem um 'soft spot').


Melhor Atriz Secundária
Vai ganhar e devia ganhar Viola Davis, em Vedações
 - Até meio do filme parece que tudo está feito para Denzel brilhar mas depois salta Viola para a ribalta com uma intensidade e paixão impressionante. Ela meteu toda a carne no assador na parte final e ela, o filme e nós ganhamos com isso. Já a entrevistei em 2008 a propósito de um filme que a colocou no mapa do cinema, Dúvida (pena não ter ganho mais Óscares nesse ano). Tal como em Dúvida, ela está incrível e à terceira será de vez. Viola é a primeira mulher negra a conseguir a terceira nomeação para os Óscares e tudo começou com a Dúvida. Não vejo ninguém perto do seu nível, nem Naomi Harris em Moonlight, nem Nicole Kidman, nem Octavia Spencer nem Michelle Williams.


Melhor Argumento Original
Vai ganhar e devia ganhar: Manchester By the Sea - O argumento em conjunto com a realização e interpretações são notáveis. La La Land também tem potencial para ganhar mas se Manchester vencer melhor realizador, La La Land melhor filme, até gostava de ver o Mulheres do Século XX recompensado nesta categoria. É um belo filme. Não vi o Hell or High Water.


Melhor Argumento Adaptado
Vai ganhar e devia ganhar: Moonlight - Os diálogos e a intensidade de várias cenas são de grande nível e mesmo que não goste de algumas escolhas da história a certa altura parece-me bem dado. Mas também via com bons olhos distinção para Lion, Hacksaw Ridge ou Arrival.


Melhor Filme Estrangeiro
Vai ganhar e devia ganhar: Toni Erdmann (Alemanha) - É um grande e intenso filme e os outros não vi. É o favorito.

 
Melhor Documentário
Vai ganhar: OJ: Made in America


Melhor Direcção Artística
Vai ganhar: La La Land

Podia bem ganhar: Fantastic Beasts and Where to Find Them

 

Melhor Fotografia
Vai ganhar e devia ganhar: La La Land - A nível visual o musical é brutal. Só para rimar. Arrival também podia ter algo a dizer. 


Melhor Guarda-Roupa
Devia ganhar: Fantastic Beasts and Where to Find Them
Vai ganhar: La La Land

Melhor Montagem
Devia ganhar: Hacksaw Ridge
Vai ganhar: La La Land


Melhor Banda Sonora Original
Vai ganhar e devia ganhar: La La Land

Melhor Canção Original

Vai ganhar e devia ganhar: “City of Stars,” La La Land

 

 

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Melhores Efeitos Visuais
Vai ganhar devia ganhar: O Livro da Selva - Devo admitir que olhando para os filmes do ano, houve um que se destacou não só por me surpreender como por apelar ao meu de pré-adolescente que vibrava com este tipo de filmes de aventura e fantasia, este O Livro da Selva. E os efeitos são verdadeiramente incríveis. Não parecem efeitos, parece real e isso é o melhor elogio que se pode fazer. 

 

 

Super Homem 'totó' no mundo de Batman envelhecido

‘Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça’ traz um dos duelos mais desejados e imaginados no mundo do cinema. Ben Affleck é uma boa surpresa como Batman mas Super Homem peca pela inocência num filme com guião pobre e que no cômputo geral é fraco e, em boa verdade, mau (falhanço monumental na capacidade de suscitar interesse enquanto o vemos). Apesar disso tem-se conseguido cingrar nas receitas de bilheteira.

 

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É um dos encontros mais aguardados dos últimos anos no cinema: Batman e Super-Homem. E a questão tem-se mantido desde o início de ambas as BD da DC Comics, dos anos 1930: quem venceria num duelo? O filme de Zack Snyder (de 300, Watchmen e Homem de Aço) tenta responder a essa questão num filme com muitos defeitos. Apesar de funcionar em certa medida como sequela de Homem de Aço, parece bem mais que estamos no mundo de Batman (tanto Gotham como Metropolis estão presentes) do que do homem voador.

Para surpresa de muitos o envelhecido, duro, sádico e vigilante obcecado Batman de Ben Affleck é o protagonista mais convincente no filme de Snyder, onde não faltam cenas de ação espetaculares e super-heróis cheios de demónios.

A premissa começa com um Super-Homem (Henry Cavill) envolvido em polémica. Depois de ter salvo Louis Lane (Amy Adams) das garras de um tirano africano, uma aldeia local é dizimada e muitos acreditam que Super-Homem deve prestar contas e é uma ameaça que tem de ser contida. É aberta uma comissão para estudar o tema e em ação entra Lex Luthor (Jesse Eisenberg, consegue ser consistente e algo assustador) que tenta provocar guerra com Super-Homem à medida que busca kryptonite que pode fragilizar o extra-terrestre poderoso.

Com um Batman amargurado – nem um versátil Alfred (Jeremy Irons) lhe dá a volta – e cada vez mais convencido que Super-Homem é perigoso, o caos vai voltar a Gotham e Metropolis. O problema está no guião e na forma como o conflito evolui: sempre usando a burrice ou a falta de perspicácia dos super heróis que não são assim tão inteligentes (Super Homem fica como o totó do filme). Ora, quando não temos um vilão forte e brilhante - e protagonista - como vimos em Dark Knight, o filme peca por pouco cativante em termos de história.

Resumindo, o filme de Snyder, embora tenha bons momentos, tem um guião pouco complexo e que mostra super-heróis demasiado crédulos. Uma boa surpresa é a entrada em cena da Mulher Maravilha, interpretada pela carismática israelita Gal Gadot.

Curioso para ver um filme a solo do Batman de Ben Affleck (já foi anunciado que vai ter direito a ele).

E os melhores de 2015 são...

Aqui fica o meu top do ano (dos filmes estreados em Portugal, sem contar com os filmes que estrearam no início do ano e foram protagonistas nos Óscares) - sem ordem em particular:

Mad Max: Estrada da Fúria

Ex Machina

A Ponte dos Espiões

Steve Jobs

Divertida Mente

O Agente da UNCLE

Star Wars

A Família Belier

007 Spectre

Predestinado – Predestination

The Walk

Amy

The Young and Prodigious TS Spivet

 

 

Menções honrosas para:

Evereste, pelos efeitos

Perdido em Marte, pelo Matt Damon em Marte

A Juventude

Morte Limpa – Good Kill

Mínimos

Chappie

 

Filmes já presentes na última edição dos Óscares que estrearam no início do ano e que não incluo na lista por motivos óbvios mas estariam noutra situação (por ordem de preferência):

Birdman

Whiplash

O Meu Nome é Alice

A Teoria de Tudo

Sniper Americano

O Jogo da Imitação

Big Eyes

 

Jobs, rebelde com causa

Steve Jobs - 8/10

 


O melhor filme feito sobre Steve Jobs até ao momento. Danny Boyle e Aaron Sorkin fazem uma parceria perfeita e os vislumbres incríveis a que assistimos dos momentos antes das apresentações de produtos são condensados de forma brilhante. Steve Jobs era abrasivo, exagerado e estava várias vezes errado mas era visionário em vários níveis. A fazer lembrar a personalidade de CR7 mas na questão de se tentar superar sempre, exigir o máximo de si e também dos outros que o acompanham numa missão/visão. O filme capta na perfeição esse espírito ao mesmo tempo que mostrar o ser humano com defeitos e atitudes pouco decentes.

A certa altura Woz diz a Steve, já na parte final do filme, não tens de um ser humano binário, podes ser decente e talentoso ao mesmo tempo. Incrível desempenho de Michael Fassbender. Mesmo sem parecer fisicamente Jobs parece muito nas acções, na intensidade, complexidade como ser humano e determinação. O filme, mesmo sem ter uma estrutura complexa, tem uma intensidade dramática e uma beleza de planos e momentos incrível - Danny Boyle deixa brilhar os belos diálogos de Sorkin e os belíssimos actores em cena.

Fassbender e Winslet têm uma química impressionante - curioso o facto de ambos serem ingleses. Winslet é Joanna Hoffman, responsável de marketing, assessora, confidente e amiga de Steve Jobs, alguém que provavelmente poucos sabiam que existia na vida deste homem famoso mas que o contraria, sofre com ele e por ele. E não só Seth Rogen mostra o seu nível dramático mais elevado (belas discussões com Jobs) como a presença de Jeff Daniels como John Sculley dá uma dimensão mais robusta nas actuações do filme.

A relação com a filha presente por todas as partes destes momentos antes da apresentação de produtos, embora talvez seja exagerada relativamente ao que aconteceu, mostram bem os problemas de Steve com a situação mas também um fundo de bondade que transparece com beleza e simplicidade no filme. As duas miúdas que fazem de Lisa também cumprem, num filme que honra sem pudores e com alguma crueza mas também com poesia e beleza o visionário difícil de aturar (salta à vista a distorção de realidade que por vezes punha em frente ou a crueza com que trata os outros) Steve Jobs.

O filme de Boyle acerta em não recriar as apresentações feitas por Steve mas foca-se nos momentos de tensão anteriores. E se há pecado importante que o filme tem são os exageros na ficção em detrimento da realidade (a chamada liberdade artística) para efeitos dramáticos, podem mostrar mais facilmente a personalidade dele assim mas exageraram bastante, pelo que é explicadado aqui, e é isso que torna o filme menos brilhante - numa personalidade destas era importante haver menos desvios sobre o que aconteceu.

Em certas alturas, por passar muito tempo em bastidores e andar-se sempre a correr contra o tempo e em stress (antes de Steve entrar em cena no palco), o filme faz lembrar Birdman.

Um mecanismo brilhante para criar intensidade dramática e mostrar tanto destas pessoas em tempo real - antes das tais apresentações. Um dos filmes do ano, muito também por ser um belíssimo filme sobre este visionário que mudou tanto em tão pouco tempo. Vislumbres de um visionário com atitude.

Magia Zemeckis no arame

The Walk  - 8/10

 

Que belíssima aventura visual que Robert Zemeckis nos traz, com a sua arte de contar histórias, o entusiasmo contagiante de Joseph Gordon Levitt no arame e na vida e com a magia visual e sensorial que o filme nos consegue transmitir seja por perícia nos efeitos, beleza da vista, como poesia na palavras de Petit. Um belíssimo filme, uma história épica que merece ser bem contada e que ganha uma dimensão diferente após a destruição em 2001 das Torres Gémeas.
O momento de passagem no arame de uma torre para a outra é o momento do filme, repleto de intensidade e twists (é um filme dentro do filme) e tira-nos literalmente o fôlego, torcemos por ele, sofremos por ele, temos tonturas com ele. Uma realização perfeita (mesmo!) e uma actuação à altura. Numa palavra: arrepiante... ah, e bom!

Youth, juventude selada num resort suíço

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O italiano Paolo Sorrentino leva-nos neste belo exercício de velhice - A Juventude - passado num resort de luxo dos Alpes suíços pela mente de dois homens de carreiras cheias mas as incertezas, medos e receios que foram construídos ao longo de uma vida de sucessos incríveis mas também tristezas imperdoáveis. Michael Caine e Harvey Keitel são dois amigos. O inglês é um compositor de sucesso, retirado e amargurado, o americano é um realizador/guionista de sucesso a tentar escrever o seu último guião obra-prima. Entrar pelas angústias pouco explicítas mas incrivelmente profundas destas duas personagens é tão peculiar (a imaginação anda à solta) quanto cativante.

Não falta um mundo de personagens intrigantes no meio deles os dois, desde o actor a estudar para um papel (Paul Dano), passando pela massagista que 'fala' com as mãos e que dança em casa da forma mais graciosa possível, até à prostituta tristonha que faz serviços pelo hotel e, claro, a filha (e assistente - Rachel Weisz) do compositor enganada pelo marido (que curiosamente é o filho do realizador) e que busca encontrar-se e encontrar algum amor do pai (que julga que nunca teve) e de um homem que a faça sentir desejada.

Muito bem filmado e de grande riqueza visual num cenário de beleza natural impressionante, A Juventude permite ver actores memoráveis e carismáticos a contracenar o que, por si só, é uma bela oportunidade. 

 

Um filme simples mas imaginativo q.b. que nos transporta para uma introspecção sobre a velhice no meio da beleza dos Alpes suíços.. PS: até Jane Fonda faz uma aparição!

7/10

«A ‘força’ é forte neste» Star Wars

A saga de Star Wars volta às origens, 32 anos depois, sob o leme de J.J. Abrams e com novos (e velhos) heróis. Este é ‘O Despertar da Força’. Já vi e abordo aqui a experiência... sem spoilers! Em resumo: Não sendo perfeito é maravilhosamente rico e verdadeiramente emocionante.    >> 7/10

 

 

Poucas experiências e ainda menos sagas de cinema têm este poder avassalador. Passados 32 anos da conclusão da 1ª trilogia de Star Wars, a história que apaixonou várias gerações (foi reposta no cinema retocada digitalmente em 1997) está de volta da forma mais maravilhosa possível: homenageia no tom certo a primeira saga transportando-nos de uma forma que pensávamos já não ser possível para aquele mundo.

Ver ‘O Despertar da Força’ é voltar a ver Star Wars, apesar de agora até estar sob a égide da Disney (George Lucas vendeu a Lucasfilm em 2012). Temos um sentimento raro, mágico até, de quem vê um velho amigo, um avô (em Han Solo, que está de volta em grande) ou um lugar, ambiente e realidade que esteve tão, tão distante, numa galáxia que agora está de volta. Convence. Apaixona. É feito por um apaixonado.  

J.J. Abrams é como um miúdo que tenta aproveitar ao máximo o seu brinquedo preferido e o seu entusiasmo transborda do novo filme para as cadeiras da sala de cinema. Por ironia do destino é quando um apaixonado da saga pega nela das mãos do seu criador, George Lucas, que a aproxima da primeira trilogia.

Lucas quis fazer diferente quando voltou à saga, 16 anos depois de O Regresso do Jedi (1983). O 2ª trilogia a surgir, lançada entre 1999 e 2005, contou a história que antecedia a 1ª trilogia, os antecedentes de temível Dark Vader - episódios I, II e III. Mas essa 2ª trilogia afasta-se em demasia do ambiente dos primeiros filmes, chega a parecer uma saga diferente, menos verosímil e com personagens mais próximas da animação - notam-se em demasia os efeitos especiais.

Nesta crítica procuramos contar pouco da história e mais da experiência – é fulcral evitar os chamados ‘spoilers’. A expetativa para a nova trilogia é gigantesca (são esperados recordes inéditos), depois de um marketing forte e de um regresso tão desejado.

 

Regresso ao passado

O homem que trouxe de volta Star Trek teve a ajuda preciosa do guionista Lawrence Kasdan, de ‘O Império Contra-Ataca’ e ‘O Regresso do Jedi’, bem como do talentoso Michael Arndt (de Little Miss Sunshine e Toy Story 3). O novo filme, não sendo perfeito, é maravilhosamente rico e verdadeiramente emocionante.

Embora esteja repleto de momentos, objetos, naves e regressos desejados (Han Solo, Leia, C3PO, a mítica nave Millenium Falcon), esta é uma história passada vários anos depois da morte de Darth Vader e do fim do Império. Agora uma nova força do mal está pronta para tentar mandar.

Este Despertar da Força quase podia mesmo ter o nome do 1º filme da 1ª trilogia que estreou em 1977 (IV capítulo), Uma Nova Esperança – que conquistou, na altura, seis Óscares. Tem os mesmos ingredientes - Luke Skywalker e Rey entram no início de cada uma das duas sagas de forma parecida, até no ambiente: um planeta-deserto. Se, por um lado, é eficaz e inclui cenas emocionais para os fãs antigos, por outro chega a parecer um remake dessa saga que apaixonou tantos e está pronta para apaixonar as novas gerações que não conhecem este ‘mundo’.

A maior crítica a fazer é a colagem por vezes exagerada ao primeiro filme. Também podia e devia ter um pouco menos de frases-chavões (ou podiam passar mais despercebidas) e gerir melhor as emoções das personagens - falta tempo para chorar a morte dos desaparecidos ou recordar o passado. Mas esse colar ao passado é também um dos seus trunfos. Ao contrário dos episódios I, II e III, é memorável, apaixonante e digno do gigantesco legado. Como diria Darth Vader, «a Força é forte neste».

 

PERSONAGENS

O temível Kylo Ren
O mau da fita é este Kylo Ren, uma espécie de sucessor/seguidor de Darth Vader. E mais não dizemos. É ver na sala. O actor que o interpreta, Adam Driver (que brilhou e mostrou versatilidade e um lado negro em Enquanto Somos Jovens), tem tudo para fazer de Kylo uma personagem icónica.

O troca tintas Finn - (SPOILER ALERT)
Finn (John Boyega) é um Stormtrooper em crise existencial que se junta ao piloto exímio Poe (Oscar Isaac). Boyega não está mal no papel, o maior problema é a rapidez com que na história tão depressa está desejoso de fugir para porto seguro e longe da confusão (só pensando em si) como no momento seguinte já só quer ser herói. Cola um pouco mal a mudança drástica. Poe é uma personagem que promete mas tira todo o proveito de Oscar Isaac - que esteve bem melhor em Ex Machina.

A ‘sucateira’ Rey
A atriz Daisy Ridley é a maior surpresa do filme. Ela é Rey, uma sucateira de um planeta deserto com desafios incríveis... É a ela que o droide da Resistência BB-8, uma espécie de versão mais moderna do divertido R2-D2 (que também aparece), mais vai servir. O filme claramente tenta quebrar as falhas em igualdade de géneros (e de raças, com a presença de Finn, um Stormtropper negro) da primeira trilogia, onde só Leia tinha falas. Agora até uma mulher chefe dos Stormtroppers existe. Não faltam mulheres extra-terrestres importantes no enredo. A verdade é que não parece forçado e no caso de Rey é uma mais valia para o filme. Resulta.

Han Solo (e Chewbacca)
Harrison Ford (o único dos actores da primeira trilogia que teve uma carreira completa no cinema além de Star Wars) está mais velho, tal como Han, mas em forma e não lhe faltam dilemas, com Leia (agora General e não princesa) à mistura. Han Solo é a personagem mais convincente e memorável no início desta nova trilogia.

 

Algumas curiosidades da 1ª trilogia (IV, V, VI):

- O som das TIE Fighters, as naves de caça do Império, é uma mistura entre o som dos gritos dos elefantes e um carro a derrapar;

- A ideia da personagem Chewbacca foi de George Lucas, que se inspirou no seu próprio cão, chamado Indiana. O nome serviu também de inspiração a Spielberg para usar o nome Indiana Jones;

- Alec Guinness, o ator que foi Obi-Wan Kenobi, estava reticente em participar, dizia que parecia ser um conto de fadas de má qualidade, foi convencido com um contrato para receber 2% das receitas de bilheteira. Resultado? Lucrou mais de 95 milhões de dólares.

Star Wars do princípio - intimidade intergaláctica

Lembro-me bem do meu fascínio avassalador pela saga Star Wars - na altura ainda Guerra das Estrelas - assim que vi a saga, algures para o fim da década de 80. Vi em VHS os três episódios. Era puto para ter os meus sete anos. Lembro-me do velho sofá de família me acolher naqueles minutos a ver magia no pequeno ecrã. Acho que nunca me tinha sentido tão próximo do espaço e de um mundo capaz de ir tão longe quanto a minha imaginação. Lembro-me de pensar: "Como é que a existência de um filme assim não passa nas notícias. Isto é genial. Devia ser obrigatório ver este filme". Lembro-me de sentir que era uma descoberta incrível aquela que eu tinha feito ao ver o filme e de serem poucas pessoas que o valorizavam como eu. Mas sempre que encontrava outro apaixonado ficava eufórico. Como se de uma religião se tratasse, tentava convencer os meus pais e colegas da Primária do Bairro da Ponte a embarcarem numa história intergaláctica distante no espaço mas tão verosímil, entusiasmante e repleta de sensações novas para um puto de sete ou oito anos. Mais tarde lembro-me de ficar chocado quando alguém não tinha visto a trilogia. E segundos depois já estava com um: "tens de ver! É inesquecível". Lembro-me de emprestar as preciosas três K7's VHS que guardava religiosamente no lugar de honra da minha colecção de filmes à minha namorada - actual mulher - quando começámos a namorar. Ela não tinha a certeza se tinha visto todos os filmes. Tinha de mudar isso. Mas infelizmente não fiz dela uma devota desta religião/saga repleta de seres estranhos, de uma força inerente que tudo controla, de um império do mal que tem origem em pessoas que já foram boas e em personagens verdadeiramente apaixonantes em situações complexas e moralmente ambíguas. Daqui a pouco vou ver o regresso da saga, com a esperança que seja mais fiel à primeira trilogia (IV, V e VI) e com a mesma naturalidade/intimidade intergaláctica.

Nesta paixão um dos momentos mais importantes foi quando a saga foi reposta no cinema em 1997, remasterizada digitalmente (com efeitos melhorados). Finalmente consegui ver tudo no cinema, como devia ter sido visto logo pela primeira vez. Andava em pulgas para que estreasse e, depois, confesso que me voltei a emocionar com as cenas mais memoráveis.

O Leão da Estrela: é uma família de leões, com certeza

A 2ª adaptação de um clássico da comédia nacional de Leonel Vieira é esta O Leão da Estrela, que estreia hoje por todo o país. Já sem referência ao Sporting, falámos com o guionista Tiago R. Santos e com o ator Miguel Guilherme (o Anastácio) sobre esta comédia «mais intimista» e sobre... os críticos 'eruditos'. >> 6/10

 

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Cerca de 600.000 espectadores viram O Pátio das Cantigas, versão de 2015, um recorde para os filmes portugueses nos tempos recentes mas quem nem por isso salva o filme - uma espécie de sketches de humor aglutinados. Agora chega ao cinema a segunda adaptação de Leonel Vieira de um clássico nacional.

O melhor conselho a quem viu os filmes antigos e vê agora estes? Ignorem o nome, estes não são remakes e mais vale serem vistos como filme novos e com relação ténue com os antigos-

O Leão da Estrela deixa de lado os leões de Alvalade e o FC Porto-Sporting, do filme de 1947, para se concentrar no futebol local da 3ª divisão (o que também tem a sua piada - são rivalidades diferentes mas igualmente à flor da pele). Miguel Guilherme é Anastácio, fanático pelo clube Leões de Alcochete e com um único objetivo, ir ver o importante duelo com os Barrancos do Inferno ao Alentejo.

Com menos personagens e bem mais complexo e cativante do que O Pátio das Cantigas, nesta comédia de costumes tudo gira à volta de uma família típica portuguesa – não falta o chico-espertismo e desenrascaço entre as personagens peculiares e com carisma próprio.

Tiago R. Santos, argumentista conhecido por colaborar desde Call Girl (2007) com António Pedro Vasconcelos, foi o responsável por escrever agora o guião adaptado. Ao Destak o guionista explica que «a premissa é a mesma, um tipo quer ver um jogo de futebol, tem de arranjar onde ficar e cria uma enorme mentira à volta disso porque são uma família de aldrabões, que está disposta a mentir para ficar à borla em casa de alguém».

«Era difícil fazer uma adaptação literal do filme, porque há muita coisa que já não ‘cola’, daí explorarmos o sentimento mais local. Isto é comédia-homenagem ao anterior filme, que tem a sua própria narrativa e os seus próprios diálogos», explica o experiente guionista, chamado agora por Leonel Vieira e que não escreveu o guião de O Pátio das Cantigas.

No centro da história, para além do fervoroso adepto dos Leões de Alcochete determinado em que a estrela brasileira da equipa (Divanei, um peculiar avançado amador que também é 'caixa' de supermercado) jogue, está a mulher de Anastácio (Manuela Couto), triste pelo marido se ter esquecido do aniversário de casamento, a filha popular no Facebook (Sara Matos) que tenta arranjar através de um amigo rico casa no Alentejo para a família ficar e a filha ‘rato de biblioteca’ e incompreendida (Ana Varela).

Não falta a exuberante sobrinha alentejana que vive com a família (Dânia Neto) e o namorado mecânico (Aldo Lima) que arranja um táxi para a agitada viagem pelo Alentejo, onde a família vai conhecer o adepto fanático pelo Barrancos do Inferno (José Raposo) e a rica e snob dona da casa onde esperam ficar (Alexandra Lencastre) e o seu filho (André Nunes). É na road trip até ao Alentejo e a bordo de um táxi emprestado de decorrem os melhores momentos de uma comédia leve, por vezes exagerada, mas eficaz na hora de fazer sorrir e entreter.

Entretanto o filme criou já polémica. O crítico do Público Jorge Mourinha disse que «nunca» se sentiu «tão insultado por um filme» e não olhou a palavras para atacar o que diz ser "um chorrilho de disparates filmado às três pancadas". Depois da crítica não ter sido convidada para ver O Pátio das Cantigas versão 2015, para o Leão da Estrela foi e Mourinho não olhou a argumentos para destruir. Ler a sua crítica é ler um exagero pegado. É difícil ver o filme e reconhecê-lo na crítica 'bota abaixo' de Mourinha. 

Em resposta, Tiago R. Santos que também é crítico de cinema mas da Sábado, diz que o que é verdadeiramente importante é que uma comédia «divirta o público». Sobre os chamados críticos ‘eruditos’: «escrevem uns para os outros».

«Uso o Jorge Mourinha como referência. Se ele gosta muito de um filme eu provavelmente não vou ver. Quando escrevo guiões se achar que o Mourinha vai gostar, reescrevo o guião até achar que ele vai ficar insultado», explicou com ironia.

O seu próximo projeto, novamente com António Pedro Vasconcelos, estreia já no final do próximo mês e chama-se Amor Impossível.

 

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MIGUEL GUILHERME

Para o ator português que já tinha sido Evaristo no Pátio das Cantigas (personagem de que ainda se lembra de vez em quando), esta é uma comédia «mais intimista, o outro era mais uma orquestra sinfónica e esta diferença entre filmes é muito interessante».

Sobre gravar em família: «houve química entre a família inteira e adorei os diálogos com muita interação. São mais difíceis e desafiantes de fazer mas quando resultam dão-me uma grande satisfação a um ator». Miguel Guilherme deixou ainda um recado ao eterno dilema 'críticos' e 'popularidade', ao explicar: «só participo em filmes que tenham alguma qualidade inerente e tenham algum mérito».

Segue-se em 2016 o 3º clássico que Leonel Vieira vai adaptar, A Canção de Lisboa, que Miguel Guilherme ainda não sabe se consegue fazer. «Quero muito participar nos três filmes mas ando com uma agenda muito preenchida e não vai ser fácil», explicou.

O ator está a estrear agora uma comédia com o Bruno Nogueira no Casino Estoril chamada O Meu Vizinho Judeu e participa na novela Coração D'Ouro. «Estou morto de cansaço por ser um período tão activo mas muito feliz pelo resultado da peça», disse o ator.

E qual a dificuldade de conciliar tudo? «É muito difícil conciliar novela e peça mas quando estamos motivados é incrível ver que o corpo aguenta um pouco mais do que pensávamos. Isso é que é engraçado. Têm sido tempos desafiantes mas compensadores. Posso estar dois meses ou três a fazer muito pouca coisa como posso estar muito tempo sem parar, embora não goste de fazer projetos ao mesmo tempo. Preferia sempre fazer projeto a projeto, até pelo meu corpo.»

Sobre os críticos e o cinema português em geral o ator também lançou farpas: «O que é um bocadinho parolo no nosso meio é que se misturam alhos com bugalhos. São parolos habituais, mas não era preciso. Eu já filmei com o Manoel de Oliveira, aliás foi o realizador com quem filmei mais e ele nunca se chatearia de eu estar a fazer O Leão da Estrela ou outra comédia assim. Se calhar até achava graça. O Manoel era um senhor e percebia que uma coisa não tem a ver com a outra. Há vários tipos de público, vários tipos de cinema, as pessoas intercruzam-se. Eu sou ator e tenho tendência a fazer coisas quando acho que são engraçadas ou mesmo boas, desde que não sejam ofensivas contra as minhas ideias estruturais. Eu vivo disto e para isto.»

Spectre: 'Farewell Mr. Bond, but not goodbye*'

James Bond está de volta pela mão de Sam Mendes neste intenso ‘Spectre’. Daniel Craig parece dizer assim adeus à personagem que reinventou em quatro filmes.

 

 

Se há frase que tem sido dita por Bond Girls e maus da fita nos 24 filmes de 007 é precisamente «Adeus, Mr. Bond». Esta em particular dirigida a Roger Moore vem do filme ‘Missão Ultra-Secreta’, de 1981. Daniel Craig tornou-se em 2006 (com Casino Royale) o 6º ator a interpretar Bond, James Bond, e o primeiro a nascer após o início da saga no cinema (na altura, 1968, Sean Connery era o Bond de serviço). Quase uma década depois estreia hoje Spectre, o 4º filme e, tudo indica, o último com Craig mas não o último de 007.

Sam Mendes volta ao leme, depois de uma parceria feliz em críticas e receitas de bilheteira – bateu o recorde absoluto de 007 – com Skyfall, em 2012.

E o que vale Spectre?
É um ‘Spectre-táculo’, como dizia a revista Variety. Se este é mesmo o último filme para Craig (e vamos evitar os chamados spoilers neste texto), o seu estilo de Bond mais físico e negro (com traumas reais) acaba o percurso épico em grande, nas emoções e em adrenalina, no máximo.

O ator inglês de 47 anos reinventou, em conjunto com a produção (e neste filme ele junta-se inclusive à equipa de produção), a personagem e recentemente admitiu que está na hora de pendurar as armas, os gadgets e a licença para matar.

Spectre é também uma homenagem ao percurso que começou com Dr. No e Sean Connery em 1962 e o filme está repleto de referências à saga que existe há 53 anos no cinema e foi criada em 1953 por Ian Fleming. Há ainda uma clara sensação de fim de ciclo, com os vários amores e vilões que influentes na vida recente de Bond, versão Craig, a serem reavivados por um mau da fita pequeno e tenebroso que oscila entre o simpático e o psicótico (Christoph Waltz).

México, Roma, Marrocos
O novo filme começa na sequência da morte chocante de M (Judy Dench), em Skyfall. Uma mensagem encriptada para Bond desencadeia uma investigação a nome individual sobre uma misteriosa organização criminosa chamada Spectre que começa no México, com Bond a criar o caos para impedir um ataque terrorista.

O novo M (Ralph Fiennes) tenta manter o MI6 em funcionamento numa altura em que um novo chefe nomeado pelo governo britânico quer acabar com o programa dos agentes secretos e apostar na vigilância global. O insubordinado Bond tenta, à revelia da chefia, encontrar forma de destruir a ameaça da Spectre – onde encontra em Hinx (o ex-wrestler Dave Bautista) um rival persistente numa aventura que o leva também por Roma, Áustria e Marrocos.

Se há parte que podia resultar melhor é a história de amor, que podia ser melhor explorada, de Bond, com a líndissima Léa Seydoux. Ela sim uma actriz e personagem com muito para dar.

 

NOVAS PERSONAGENS
Oberhauser - O líder da organização Spectre
(Chistoph Waltz) é um homem bizarro, cheio de truques e manias a fazer lembrar outros vilões míticos.

Lucia
Aos 51 anos, Monica Belucci tornou-se na menos nova (e uma das mais sexys) Bond Girls. Viúva em risco de vida, vai envolver-se com 007.

Madeleine Swann
A francesa Léa Seydoux faz de uma filha de um assassino e a última Bond Girl a entrar no filme. Bela e mortífera, torna-se personagem-chave para Bond.

 

Matt perdido em marte com uma missão

‘Perdido em Marte’  >> 6/10

 

Foi uma pena não ter tido tempo na altura em que o vi para escrever uma crítica decente deste filme repleto de bons momentos de Ridley Scott.

O realizador inglês volta à ficção científica nesta história de uma missão a Marte que coloca um astronauta (Matt Damon, de volta ao espaço depois de Interstellar) numa situação de risco: um acidente coloca-o fora da equipa da missão e, quando todos pensavam que ele tinha morrido, ele dá sinais de vida mas percebe que acabou por ficar ‘abandonado' no planeta.

O que se segue é pura sobrevivência com ajuda de quem está na Terra. O filme podia ser mais completo e convincente em algumas partes mas vive por completo do brilhantismo de Matt Damon (podem dar-lhe mais um Óscar que é bem entregue), um homem que se torna à força habitante de Marte, mas que lida relativamente bem com isso. Ele tem uma dupla missão, sobreviver e arranjar forma de tentar voltar para casa, e uma sub-missão, contar a sua experiência para as GoPro presentes para que outros percebam o que ele está a viver e possam aprender com isso.

É esse momento Cast Away, com semelhanças ao filme em que Tom Hanks está perdido numa ilha deserta, de que vive o filme. E vive bem, diga-se. Damon é genial por lá, naquele mundo distante, onde põe em prática o seu lado de cientista mas acima de tudo de botânico - o filme até nos ajuda a perceber o quão essencial e cativante pode ser a botânica. Nesse périplo não faltam belos momentos divertidos (tudo o que ele fizesse por lá seria o primeiro homem a fazê-lo) mas também introspectivos deste homem sozinho em Marte que nos fazem tentar imaginar o que seria se ficássemos presos num planeta que não é o nosso.

 

Do incrível elenco fazem parte Jeff Daniels, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Michael Peña, Kate Mara, Sean Bean, Sebastian Stan, Aksel Hennie e Chiwetel Ejiofor.

Sobrenatural ao estilo Del Toro mas de pouca tracção em Crimson Peak

Guillermo Del Toro volta ao terror com Crimson Peak: A Colina Vermelha. Tom Hiddleston, Mia Wasikowska e Jessica Chastain são o trio que protagoniza o filme. Que desilusão e desperdício de filme!   >> 5/10

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Um romance gótico, repleto de fantasia, mistério sobrenatural e alguns sustos. Guillermo Del Toro volta ao que o distinguiu no mundo do cinema, o fantástico, mas com uma história que chega a parecer pobre demais para ser verdade.

O realizador da saga Hellboy e de O Labirinto do Fauno aventurou-se em 2013 num blockbuster (Batalha do Pacífico) mas em ‘Crimson Peak: A Colina Vermelha’ volta ao seu famoso lado ‘negro’, agora na Inglaterra do século XIX.

Mia Wasikowska é a jovem escritora americana que acredita em fantasmas, Edith, que se envolve com o elegante inglês 'dono' de um título, Sir Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), Jessica Chastain é a misteriosa irmã de Thomas. O que começa por ser uma visita aos Estados Unidos em trabalho, passa a ser um romance peculiar tal é o magnetismo que une Edith e Thomas. Após o assassinato do seu pai, a jovem casa-se e parte com o seu amor para a casa da família, em Inglaterra.

É na misteriosa casa de Crimson Peek que o sobrenatural e os medos de Edith mais se revelam.

O filme de Del Toro parece ter todos os ingredientes para um romance gótico convincente: óptimos atores, cenários repletos de pormenores perfeitos, efeitos visuais espantosos de um grande realismo e um realizador experiente no género. Mas para grande lamento deste escriba, peca numa história e num enredo sem capacidade de surpreender e nem sequer inclui suspense digno de nota.

No domínio do terror não é verdadeiramente assustador e isso é um verdadeiro desperdício de talentos. Ainda assim, em fotografia é notável e é cativante quanto baste. Mas no que importa não basta.

Ser ou não ser Mínimo, eis a questão

As criaturas amarelas como as bananas têm agora direito ao seu próprio filme, depois de Gru: o Maldisposto. O fenómeno Mínimos já chegou às salas lusas. Bem aparecidos sejam. Os Mínimos, felizmente, vieram para ficar.  >> 7/10

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Há seres humanos, outros seres vivos animais e vegetais e depois ainda há... os Minions, ou Mínimos.

Os pequenos seres amarelos que falam uma língua muito própria (a fazer lembrar bebés espanhóis) têm finalmente um filme só para eles. Depois de atingirem a fama na saga Gru: o Maldisposto, hoje são protagonistas em videoclips musicais, em mensagens inspiracionais nas redes sociais e constituem um verdadeiro fenómeno cultural que apaixona seres humanos de todas as idades.

Reza a lenda (do novo filme), os Mínimos existem no planeta Terra desde os primórdios dos tempos e, ao contrário dos outros seres vivos, não crescem, não se reproduzem e parecem nunca morrer.

Esta comunidade de pequenos seres amarelos como as bananas – o fruto que adoram – só se sente realizada quando estão a servir o mais cruel dos patrões. Mesmo com o seu ar simpático, bondoso e divertido, os Mínimos «só se sentem bem com um senhor a quem servir», como diz o narrador (Herman José na versão dobrada) do filme a certa altura.

Esta é a história da sua evolução desde os primórdios dos tempos, até descobrirem o patrão perfeito: Gru.

Com uma comédia muito física, a fazer lembrar o esquilo Scratch de Idade do Gelo, acompanhamos os Mínimos desde os tempos em que serviam o tiranossauro, passando por Napoleão, até ao momento em que, deprimidos e sem mestre, três deles – Kevin, Bob e Dave – decidem rumar até a uma convenção de vilões nos EUA, para descobrir um novo mestre. Por lá encontram Scarlett Overkill, a primeira supervilã do mundo. Mas o trabalho para ela em Londres vai levá-los a mais a uma aventura improvável.

O filme do estúdio franco-americano Illumination, é uma divertida aventura que faz jus ao potencial dos heróis improváveis amarelos Mínimos e os coloca perante dilemas peculiares, com os quais eles lidam de uma forma particular e original. São personagens com tanto para dar e, mesmo que pareçam falar uma língua imperceptível, conseguem ainda assim comunicar, sentir, reagir e sempre divertir.

 

A versão original conta com vozes de Sandra Bullock, Michael Keaton e Steve Coogan. Do elenco português fazem parte Soraia Chaves, César Mourão, Herman José e Vasco Palmeirim.

Pixar e o B, A, BA, das emoções humanas em 'Divertida mente'

A Pixar traz-nos 'Divertida-mente', sobre a forma como as emoções humanas (personificadas) lidam umas com as outras no cérebro de uma rapariga. Uma das melhores explicações do funcionamento do cérebro humano no cinema e, acima de tudo, uma animação encantadora com tanto para oferecer.  >> 8/10

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No início dos anos 90 uma divertida série televisiva chamada Herman’s Head – que também passou em Portugal – mostrava os diferentes traços da personalidade de um homem que, dentro do seu cérebro, tentavam ter importância. O conceito genial era apaixonante mas a série, com menos meios do que devia ter, acabou por cair nas audiências e no esquecimento. Mas o mote estava lançado - tal como Lipstick on Your Collar, uma mini série britânica com Ewan McGregor de 1993 já mostrava de forma brilhante o conceito da imaginação-ao-vivo-e-a-cores que a série Ally McBeal popularizou anos mais tarde.

A Pixar expande esse conceito e tornou-o na sua mais recente animação. 'Divertida-mente', tal como o nome indica, consegue ser uma animação divertida e repleta de imaginação capaz de agradar a miúdos, mas também a graúdos já que consegue com mestria mostrar como os diferentes traços de personalidade humana (Alegria – voz de Amy Poehler – o Medo, a Raiva, a Repulsa e a Tristeza) podem ser compatíveis.

O filme pode ser complexo demais para crianças mais novas mas consegue explorar como poucas animações o fizeram as emoções humanas em situações de dificuldade e deixar-nos a pensar sobre a forma como o que nos acontece na infância ou na idade adulta nos pode mudar e afectar as nossas reacções.

O 'cérebro' protagonista é o de uma menina que tem dificuldades em lidar com a mudança da família do pacato Minnesota até à complexa São Francisco.

Mad Max no mundo da Furiosa

Charlize Theron é uma das boas surpresas de ‘Mad Max: Estrada da Fúria’, um dos melhores filmes de ação (frenética) dos últimos anos que volta a ser realizado pelo australiano George Miller. >> 9/10

 

 

É um dos maiores riscos no cinema: voltar ao sítio (às sagas) onde já se foi feliz. Foi isso que fez o cineasta autraliano George Miller, criador do pós-apocaliptíco Mad Mad, trilogia com Mel Gibson que acabou por criar um género nos anos 80. Agora, 36 anos depois do primeiro filme (1979), o próprio Miller recomeça a saga do lendário Mad Max com, arriscamo-nos a dizer, o melhor filme de ação do ano.

A Rush of Blood to the Head. Os Coldplay têm a música (e álbum), Mad Max versão século XXI tem a experiência completa. Mad Max: Estrada da Fúria não fica nada a dever à mítica saga de Mad Max, embora seja diferente – consegue manter os níveis de adrenalina no máximo.

Esperem emoções fortes, mas também pouco diálogo e muita ação. O conflito, loucura, dilemas e profundidade estão lá todos, mesmo sem muitas palavras nem diálogos. Só o suficiente.

Em vez de estar tudo centrado num protagonista (Mel Gibson, na saga anterior), agora temos acima de tudo dois, Charlize Theron (interpretação incrível) e Tom Hardy (à altura) - por esta ordem. Ela é Furiosa, uma mulher corajosa que foge com um grupo de mulheres escravizadas pelo homem mais poderoso deste mundo desértico e decadente.

O que se segue é uma perseguição implacável com boa música, tiros, bólides rudes, artesanais, repletos de gadgets e formas originais de fazer guerra num filme onde estamos sempre em movimento, em fuga. Max é uma das várias personagens em conflito interior, que tem de decidir que lado apoiar.

Para além do brilhantismo das (longas) cenas de ação, coreagrafadas na perfeição, no meio do deserto há maldade, crueldade, boas intenções, passados sombrios e heróis improváveis.

Um sinal dos tempos. Charlize Theron acaba por ser a grande protagonista. Mesmo com Max, cujo nome só é revelado no final, a ganhar força, interesse, profundidade e bondade a cada minuto de filme que passa, Charlize é a rainha da guerra, a mulher com a missão de procurar refúgio, quando rapta as mulheres-troféu do Lorde da Guerra que comanda tudo e todos, já que controla a água num mundo torcido com falta dela.

Este mundo dominado pelos homens é rude, cruel, injusto e egoísta. Uma mulher tenta combatê-lo fugindo com as procriadoras do dono desta realidade mas só consegue ter sucesso com a ajuda de um homem. O filme não é condescendente nem com mulheres nem com homens e é um belíssimo exemplo de como um filme espectacular com algumas das melhores cenas de acção dos últimos tempos consegue ser interessante, com substância e temas actuais no meio da diversão.

Este novo Mad Max é mesmo um dos acontecimentos cinematográficos do ano e tem já honras de saga com duas sequelas agendadas. Aleluia. O cinema de acção está vivo, memorável e recomenda-se.

Quando a criação supera os... Vingadores

‘Os Vingadores: A Era de Ultron’ é uma sequela que traz espetáculo e emoções típica dos heróis da Marvel, mas também nos mostra a visão de Joss Whedon sobre o tema da moda, inteligência artificial. Analisamos ainda alguns dos exemplos recentes onde o tema tem sido 'rei'.

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O cinema aborda a inteligência artificial há várias décadas mas nos últimos anos não só os seres criados pelo homem são mais inteligentes, como passaram a ser vistos como uma espécie de pessoas… digitais. Qual o exemplo mais recente? Exatamente um dos blockbusters do ano: Os Vingadores: A Era de Ultron, que chega esta semana às salas portuguesas.

O filme volta a ser escrito e realizado por Joss Whedon, conhecido como guionista de Toy Story, Alien: O Regresso ou Buffy, Caçadora de Vampiros (a série) mas realizador desde a série Firefly, à semelhança do primeiro filme de Os Vingadores (2012).

Agora são colocados novos desafios, mais negros e introspectivos, à equipa de super-heróis da Marvel, sobre os seus traumas: Capitão América (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Hulk (Mark Ruffalo); bem como à Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Hawkeye (Jeremy Renner).

Além de espetacular, repleto de excelentes efeitos, e emocionante, Os Vingadores: A Era de Ultron é também cativante e negro.

Tony Stark tenta usar um ceptro vindo do mundo de Thor para concretizar um sonho: criar um programa ultra poderoso, Ultron, para manter a paz no mundo, mas a inteligência do programa torna-o demasiado perigoso. O grupo de Vingadores não só passa a ter de o parar (com o risco de ser eliminado) como começa a sofrer de uma espécie de crise existencial face aos inimigos que colecciona (um deles tem poderes psíquicos).

 

Cinema & inteligência artificial

Desde 1927 que o cinema imagina um futuro dominado por robôs temíveis, quando Fritz Lang lançou a ficção científica Metropolis.

2001: Odisseia no Espaço (1968), Star Wars (1977), Blade Runner (1982), Tron (1982), Exterminador Implacável (1984), Curto Circuito (1986), RoboCop (1987), Star Trek: Gerações (1994), Matrix (1999) e À Boleia Pela Galáxia (2005), entre outros, também abordam o tema sobre seres humanos postos em causa (ou não) por seres de inteligência artificial (IA).

Mas os filmes dos últimos anos não só tornaram no tema uma moda, como vão mais longe na forma sombria e moralmente pouco clara como o abordam, à semelhança do filme de Spielberg de 2001: AI: Inteligência Artificial – onde a humanidade não é vista como heroína na relação com os andróides, bem pelo contrário.

De seguida ficam exemplos dos filmes mais recentes onde a temática é explorada, nuns casos de forma semelhante ao passado, em outros de forma original e nova (um sinal dos tempos e da forma como a tecnologia e a internet influencia de forma diferente o nosso quotidiano).

Her (2013)
Spike Jonze apostou numa inspirada ficção científica filosófica sobre um homem que se apaixona por um programa inteligente com voz de Scarlett Johansson. Uma perspetiva refrescante.

Interstellar (2014)
Se filmes como Alien já tinham um robô inteligente (aspeto humano), Interstellar (que homenageia 2001: Odisseia no Espaço) tem TARS, que Matthew McConaughey salva da morte certa.

Lucy (2014)
Luc Besson mostra uma nova perspetiva sobre a forma como o ser humano (Scarlett) pode entrar (e ser) digital, que também se vê no filme Neill Blomkamp, Chappie (2015).

Ex Machina (2015)
Thriller de ficção científica britânico ainda nas salas lusas de Alex Garland, coloca um humano a avaliar as qualidades humanas de uma robô sexy e com inteligência artificial.

Existem ainda outros filmes onde a temática é abordada, desde I, Robot (2004), com Will Smith, até à popular animação da Pixar Wall-E (2008). Com menos impacto e relevância mas também eles exemplos da tentativa de pegar no tema existem filmes como o britânico The Machine (2013) – sobre um informático que cria inteligência artificial para os militares –, ou o menos conseguido Autómata (2014), onde Antonio Banderas vive num mundo onde os robôs se tentam emancipar em segredo.

Johnny Depp também se aventurou no tema no filme Transcendence: A Nova Inteligência (2014), onde um cientista assassinado volta à vida quando a mulher incorpora no seu cérebro um supercomputador que lhe permite comunicar como se estivesse… vivo.

 

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