Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Lanterna Mágica

o cinema começa com a lanterna mágica.

A Lanterna Mágica

o cinema começa com a lanterna mágica.

E o Óscar vai (devia de ir) para...

Sou suspeito, todos somos. O cinema é a arte da subjectividade, da forma como uma história tem reflexo (ou não) na pessoa que somos. E por isso nada é garantido, tudo é sentido. Especialmente nos filmes que é suposto fazerem alguma diferença. É seguindo esta máxima que escolho aqui os que vejo com mais potencial de ganharem o Óscar e aqueles pelos quais vou estar a torcer para que vençam.

 

thr_lalaland_oscar_final.tif-h_2016.jpg

 

 

Melhor Filme
Vai ganhar: La La Land - É um musical com bons momentos mas vale mais como filme em geral do que apenas como musical. É uma história bem mais simples, centrada em menos personagens e ao mesmo tempo mais densa do que muitos musicais recentes. Num ano onde não há um vencedor óbvio no género mais típico a vencer o melhor filme, o drama, La La Land é diferente e peculiar e tem (quase) tudo para ganhar mas dizem que Moonlight está à espreita (pessoalmente achei que tinha partes incríveis mas desiludiu-me um pouco a nível de história a certa altura - queria mais enredo/narrativa - e como um todo achei menos brilhante por isso).

 

Devia ganharManchester by the Sea - Senti uma espécie de murro no estômago ao ver o filme e acho que é de uma intensidade dramática incrível, com uma história muito simples. Acho normal e aceitável que não vença e sentir-me-ei satisfeito com o Óscar de melhor realizador para Kenneth Lonergan. Tenho um carinho especial por Lion e mesmo admitindo que não é filme que encha as medidas da Academia, encheu-me as medidas a mim de uma forma a certa altura avassaladora. Também sinto 'love' por Vedações e Hacksaw Ridge (neste último mais porque é incrível ver Mel Gibson a continuar a reinventar-se com novas e intensas histórias bem contadas). Não percebo como Elementos Secretos está nomeado. 

 

Melhor Realizador
Vai ganhar: Damien Chazelle, por La La Land - Não é nada certo que ganhe mas há sinais nesse sentido. Se Moonlight ganhar o melhor filme parece-me certo que Chazelle ganha este, tal como o inverso também é provável embora eu espere que não aconteça.

Devia ganhar: Kenneth Lonergan, por Manchester by the SeaChazelle tem um trabalho incrível em La La Land e Moonlight também tem partes excelentes (embora para mim tenha depois limitações) mas o meu favorito é o trabalho de Lonergan em Manchester by the Sea. Há muito tempo que não via o trabalho de um realizador e editor ser tão determinante na forma brutal como recebemos sentimentos de uma personagem. Os momentos mais dolorosos e incríveis são sem diálogo, num jogo entre música clássica e as personagens/actores a 'sentirem' a dor. Fiquei surpreendido pelo bom trabalho de Denzel Washington em Vedação, não esperava. E Arrival também é especial a nível de realização, sem esquecer de Mel Gibson está como peixe na água no filme de acção do ano, Hacksaw Ridge.

 

Melhor Ator
Vai ganhar e devia ganhar: Casey Affleck, em Manchester by the Sea - Casey Affleck já tinha mostrado ser um actor denso noutra ocasiões mas nunca tanto como agora. Há uma simbiose entre a interpretação dele, a história que se conta e a realização e edição raras e não só é o favorito em geral como é o meu favorito. Menção honrosa para Denzel Washington em Vedações e para Viggo Mortensen em Capitão Fantástico. Andrew Garfield também está no ponto em Hacksaw Ridge (acabo por gostar mais dele aqui do que em Silêncio) e Ryan Gosling, sorrisos matreiros à parte, também me surpreendeu em La La Land mas não o suficiente para ganhar (nem sei se o nomearia). 

 

Melhor Atriz
Vai ganhar e devia ganhar: Emma Stone, em 
La La Land - Estou em falta nesta categoria. Não vi Meryl Streep em Florence Foster Jenkins nem Isabelle Huppert em Elle. Mas pelos trailers, entrevistas e outros textos que li, veria com bons olhos Isabelle Huppert vencer em vez de Emma (um reconhecimento também de carreira). A Emma Stone já teve grandes papéis e segue essa linha em La La Land, suportando em muitos momentos o filme - sorte a de Chazelle e Gosling. Entre o vulnerável e o confiante, ela está lá.


Melhor Ator Secundário
Jeff Bridges, em Hell or High Water
Vai ganhar e devia ganhar: Mahershala Ali, em Moonlight - Que interpretação de um actor que tive o prazer de conhecer e que fez do traficante de droga cubano Juan não só uma personagem densa e convincente (numa interpretação sensível e sem excessos) mas também alguém com quem criamos uma empatia peculiar. Menção honrosa para Dev Patel - finalmente um papel no cinema a mostrar o que ele é capaz - e para Michael Shannon em Animais Nocturnos (está incrível entre o polícia duro mas que esconde bem um 'soft spot').


Melhor Atriz Secundária
Vai ganhar e devia ganhar Viola Davis, em Vedações
 - Até meio do filme parece que tudo está feito para Denzel brilhar mas depois salta Viola para a ribalta com uma intensidade e paixão impressionante. Ela meteu toda a carne no assador na parte final e ela, o filme e nós ganhamos com isso. Já a entrevistei em 2008 a propósito de um filme que a colocou no mapa do cinema, Dúvida (pena não ter ganho mais Óscares nesse ano). Tal como em Dúvida, ela está incrível e à terceira será de vez. Viola é a primeira mulher negra a conseguir a terceira nomeação para os Óscares e tudo começou com a Dúvida. Não vejo ninguém perto do seu nível, nem Naomi Harris em Moonlight, nem Nicole Kidman, nem Octavia Spencer nem Michelle Williams.


Melhor Argumento Original
Vai ganhar e devia ganhar: Manchester By the Sea - O argumento em conjunto com a realização e interpretações são notáveis. La La Land também tem potencial para ganhar mas se Manchester vencer melhor realizador, La La Land melhor filme, até gostava de ver o Mulheres do Século XX recompensado nesta categoria. É um belo filme. Não vi o Hell or High Water.


Melhor Argumento Adaptado
Vai ganhar e devia ganhar: Moonlight - Os diálogos e a intensidade de várias cenas são de grande nível e mesmo que não goste de algumas escolhas da história a certa altura parece-me bem dado. Mas também via com bons olhos distinção para Lion, Hacksaw Ridge ou Arrival.


Melhor Filme Estrangeiro
Vai ganhar e devia ganhar: Toni Erdmann (Alemanha) - É um grande e intenso filme e os outros não vi. É o favorito.

 
Melhor Documentário
Vai ganhar: OJ: Made in America


Melhor Direcção Artística
Vai ganhar: La La Land

Podia bem ganhar: Fantastic Beasts and Where to Find Them

 

Melhor Fotografia
Vai ganhar e devia ganhar: La La Land - A nível visual o musical é brutal. Só para rimar. Arrival também podia ter algo a dizer. 


Melhor Guarda-Roupa
Devia ganhar: Fantastic Beasts and Where to Find Them
Vai ganhar: La La Land

Melhor Montagem
Devia ganhar: Hacksaw Ridge
Vai ganhar: La La Land


Melhor Banda Sonora Original
Vai ganhar e devia ganhar: La La Land

Melhor Canção Original

Vai ganhar e devia ganhar: “City of Stars,” La La Land

 

 

the-jungle-book-2016-image.jpg

 


Melhores Efeitos Visuais
Vai ganhar devia ganhar: O Livro da Selva - Devo admitir que olhando para os filmes do ano, houve um que se destacou não só por me surpreender como por apelar ao meu de pré-adolescente que vibrava com este tipo de filmes de aventura e fantasia, este O Livro da Selva. E os efeitos são verdadeiramente incríveis. Não parecem efeitos, parece real e isso é o melhor elogio que se pode fazer. 

 

 

Entre Wall Street e o reino do urso: Somsen, Tendinha e Lopes escolhem os seus 'Óscares' favoritos

 

«Bem-vindos à 88ª edição dos Óscares». Assim vai começar a cerimónia dos prémios da Academia de Hollywood. Os prémios de cinema mais famosos do mundo são entregues este domingo. Falei, para o jornal onde trabalho, dos favoritos à vitória final para três críticos portugueses (não confundir com previsões sobre quem tem mais hipóteses para convencer a Academia, composta por mais de 5 mil marmanjos). Miguel SomsenRui TendinhaJoão Lopes, três cinéfilos diferentes e que conheço e respeito muito, dizem de sua justiça.

 

 

> Mais do que uma indústria gigante que chega a todo o planeta, o cinema é uma arte de imagens em movimento que suscita paixões pessoais mas transmissíveis. A 88ª cerimónia dos Óscares é já esta noite e, após o apelo de boicote por não ter pelo segundo ano seguido atores negros nomeados, o apresentador Chris Rock (que 'boicotou' o próprio boicote) não deve poupar nas suas piadas à Academia pela falta de diversidade – já o ano passado Neil Patrick Harris disse a abrir que eram homenageados «os mais brancos».

Todos os anos um dos aliciantes da cerimónia que é falada e vista em todo o mundo (transmitida em direto para 225 países) é cada um ter os seus filmes favoritos e poder torcer pelas suas escolhas pessoais.

Desafiámos três pessoas habituadas a escrever e falar sobre cinema em jornais, revistas e na televisão para falarem sobre os filmes que mais gostariam de ver eleitos naquele que foi «um belo ano em qualidade».

 

Miguel Somsen (TVI e Vogue), que gosta «muito da maioria dos filmes este ano» e acredita que «qualquer um podia ganhar» está dividido nas nomeações dos atores: «Gostava que Matt Damon vencesse mas Di Caprio também, é o maior».

O desempenho em The Revenant: O Renascido, onde lida com as mazelas de ser atacado por um urso, deve dar a Di Caprio o seu 1º Óscar. É o grande favorito à vitória depois de papéis icónicos ao longo dos anos que nunca lhe valeram a desejada estatueta.

 

Para Rui Tendinha (que escreve no DN e tem programa de cinema na SIC Mulher) Michael Fassbender e o ‘seu’ Steve Jobs merece mais, tal como Mad Max «devia vencer» em filme e realizador «mas não vencerá». O crítico que ao longo do ano entrevista dezenas de atores e realizadores está em Hollywood, onde acompanhará a emissão dos Óscares para a SIC Caras.

 

João Lopes (SIC Notícias/Cinemax da Antena 1) tem a mesma opinião sobre Fassbender - merece o Óscar - mas, tal como Somsen, prefere o surpreendente e independente filme Quarto, que «devolve ao cinema a verdade visceral da experiência humana» nesta história de uma jovem enclausurada por um raptor com o filho de cinco anos num barraco. O crítico de cinema daria o Óscar ao filme do irlandês Lenny Abrahamson, novato nestas andanças e a grande surpresa nos nomeados, para Filme do Ano, Realizador e atriz (Brie Larson).

Miguel Somsen, que também daria o Óscar a Quarto em Filme e Realizador, tem pena que Steve Jobs tenha ficado de fora da lista e Tom Hanks tenha sido ignorado como melhor Ator. Deixa ainda uma ressalva sobre a sua previsão para Filme do Ano: «dizem que O Caso Spotlight pode derrotar The Revenant mas eu não acho que vá acontecer». A sua escolha para melhor Realizador cai em Iñarritu, «outra vez». O realizador mexicano venceu o ano passado por Birdman mas, por isso mesmo, talvez não consiga vencer este ano.

 

Já as preferências para melhor Atriz de Somsen vão para a veterana Charlotte Rampling, «notável em 45 Anos», embora ache que Brie Larson será a vencedora. Tendinha preferia que vencesse a jovem irlandesa Saoirse Ronan, protagonista de Brooklyn, «mas não vence».

Para atriz secundária, Lopes e Tendinha preferem Rooney Mara em Carol e Somsen escolhe Kate Winslet (a favorita à vitória final neste momento). Já no ator secundário Mark Rylance (o favorito, pelo papel de espião russo em Ponte de Espiões) é a escolha de Lopes mas Tendinha prefere Mark Ruffalo e o seu papel como jornalista de origem portuguesa em O Caso Spotlight. Já a preferência de Somsen vai para Christian Bale como analista financeiro que previu o colapso financeiro em A Queda de Wall Street.

 

Três críticos, várias opiniões. Rui Tendinha, que está em Hollywood pela SIC Caras, admite que de acordo com a imprensa local depois de O Caso Spotlight, A Queda de Wall Street é o único filme que pode fazer frente ao favorito The Revenant na categoria mais desejada.

Certezas sobre vencedores não há mas opiniões e paixões sobre os filmes em competição não faltam.

Oscars, Oscars, who will win?

Mais interessante do que quem vai ganhar é quem é que eu quero que ganhe. Para quem gosta de filmes, ver os nomeados e escolher os preferidos (e até os que deviam estar na lista e não estão) é um dos maiores aliciantes da cerimónia propriamente dita. Coloca-me a torcer pelos meus favoritos. Este ano houve bons filmes e não ficarei triste se o grande favorito The Revenant vença porque também não tenho um grande favorito. Na categoria de melhor filme fico na dúvida entre Mad Max e Quarto mas caso vença Spotlight ou The Revenant também me parecem boas escolhas. É o ano em que me sinto mais dividido nesta escolha.

Mad Max consegue fazer de um filme de acção e pura adrenalina, uma peça cinematográfica repleta de traumas, contextos e sentimentos profundos.

Quarto é um pequeno e simples filme independente que abre 'mundos' (de imaginação e esperança) com um guião poderoso, uma realização subtil q.b. e perfeita para a história e interpretações emocionais sem serem lamechas.

Spotlight é um belíssimo retrato sobre os bastidores do jornalismo mais 'puro', com um elenco de grande química e momentos fortes.

The Revenant vive da natureza (e 95% do que vemos no filme são 'cenários' naturais), que aparece aqui como peça central pela beleza e pela forma como dá os desafios aos seres humanos, pelo frio e através de um ataque de urso a Di Caprio. É um belo filme, notável em muitos aspectos, especialmente no contexto em que foi rodado, e que também será sempre um justo vencedor. Há fortes argumentos para dar o Óscar ao filme de Iñarritu e Di Caprio - o mexicano faz magia cinematográfica pelo segundo ano consecutivo depois do incrível, peculiar e bem diferente Birdman. Ainda assim sentia mais amor (para ganhar o Óscar) por Birdman do que por The Revenant e há também a questão de ser provável vencedor em anos seguidos...

Poucos falam nisto mas uma das curiosidades desta 88ª edição dos Óscares é Tom Hardy. Está nomeado como melhor ator secundário por The Revenant e é co-protagonista num dos filmes do ano, Mad Max.

 

artisans-thumbnail-the-revenant_clean.jpg

 

Aqui fica a minha lista (podem ver as previsões da Variety aqui, do crítico do Guardian aqui e as diferentes perspetivas e gostos e previsões dos críticos da Variety aqui):

 

 

Melhor Filme

Quem vai vencer: The Revenant

Quem devia ser o vencedor: Mad Max (ou Quarto, eventualmente The Revenant ou Spotlight)

Quem podia estar na lista: Steve Jobs (The Walk)

 

Melhor Realizador

012.jpg

Quem vai vencer: Iñarritu, outra vez, diz a Variety, o New York Times, entre outros

Quem devia ser o vencedor: George Miller ou Lenny Abrahamson

Quem podia estar na lista: Danny Boyle

 

Melhor Atriz

Quem vai vencer: Brie Larson

 

Quem devia ser o vencedor: Saoirse Ronan ou Brie Larson 

 

Melhor Ator

Quem vai vencer: Di Caprio

Quem devia ser o vencedor: Fassbender, Di Caprio ou Matt Damon

 

Melhor Atriz Secundária

Quem vai vencer: Alicia Vikander

Quem devia ser o vencedor: Kate Winslet ou Rooney Mara ou Alicia Vikander

 

Melhor Ator Secundário

Quem vai vencer: Stallone

Quem devia ser o vencedor: Mark Rylance ou Stallone ou Ruffalo

 

Melhor Argumento Adaptado

Quem vai vencer: The Big Short

Quem devia ser o vencedor: The Big Short ou Brooklyn

 

Melhor Argumento Original

Quem vai vencer: Spotlight

Quem devia ser o vencedor: Ponte dos Espiões ou Spotlight ou Divertida-mente

 

Melhor Filme de Animação (Longa-Metragem)

Quem vai vencer: Divertida-mente

 

Melhor Filme de Língua não inglesa

Quem vai vencer: Son of Saul (Hungria)

 

Melhor Documentário (Longa-Metragem)

Quem vai vencer e quem deve vencer: Amy

 

Melhor Fotografia

Quem vai vencer: The Revenant

Quem devia ser o vencedor: Mad Max ou The Revenant

 

Melhor Montagem

Quem vai vencer: Mad Max

 

Melhor Banda Sonora Original

Quem vai vencer e deve vencer: Os Oito Odiados

 

Melhor Canção Original

Quem vai vencer: Til It Happens To You – The Hunting Ground

patriota e nem por isso anti-guerra

American Sniper

24 janeiro 2015. 

 

Clint Eastwood domina com perfeição, simplicidade e argúcia a arte de contar uma história sem querer dourar a pílula, exagerar ou ser protagonista. Para Eastwood é a história e as emoções de uma personagem que devem ser protagonistas e ele não se coíbe, e ainda bem, de ter uma realização e banda sonora a condizer,  menos invasiva para que a história saia mais genuína e deixe espaço para a imaginação do espectador para encher o que não se diz.

 

Se fosse árbitro de futebol Eastwood seria um daqueles que nem se dá por ele, e por isso é que é tão bom e competente. Deixa que a história/jogo tome o seu curso e as vezes que intervém são tão naturais e apropriados que nem damos por ele.

 

American Sniper dá a Bradley Cooper a interpretação de uma vida. Eastwood foca-se muito nos olhos de Cooper que dão uma dimensão complexa e interessante a este atirador preciso que parece agir da forma mais correcta possível: com o único intuito de defender a sua pátria mas acima de tudo os seus colegas marines em apuros no terreno. O terreno é o Iraque e a guerrilha urbana tão desgastante.

 

O filme é um belo retrato – não sei se não será demasiado favorável ao atirador Kyle do que a pessoa que ele era na realidade, é possível – do soldado e do homem perturbado pela guerra, com dificuldades para desligar a “ficha” de soldado quando regressa a casa. 

 

Kyle fez quatro ‘tours’ no Iraque, passou por lá mais de 1000 dias, o que é pouco habitual. O filme foca (e bem) uma luta dele com um atirador sírio, bem como o desejo dele de cumprir missão após missão à medida que a sua lenda vai crescendo. 

 

O filme não dá muitas respostas mas levanta boas questões e mostra de forma crua, dura e intensa as dificuldades de um homem da guerra na tentativa de se reintegrar numa sociedade pacífica, no regresso a casa. Na minha opinião o filme também retrata bem as dificuldades da mulher de Kyle em perceber o marido e em lidar com aquele homem que volta da guerra magoado e perturbado, que não a deixa entrar na sua mente e a quem ela não consegue chegar. Menos bem conseguida parece-me ser a história de amor entre os dois, que fica um pouco em segundo plano. Há um pormenor peculiar entre marido e mulher: Kyle liga à mulher com facilidade mesmo no meio da zona de guerra, uma facilidade das guerras modernas mas que prega alguns sustos à personagem bem desempenhada por Sienna Miller. 

 

Ainda assim é um belíssimo filme, como lembra Eurico de Barros (no Observador): com muitas das boas lições de John Ford incorporadas por Eastwood – o seu fiel herdeiro “na forma e na moral” – desde o filmar dos olhos tão expressivos e que podem contar tanto, até à simplicidade “sugerindo o máximo e fazendo o mínimo” tanto de Eastwood na realização como de Cooper (que ficou 15 kg mais pesado) na interpretação.

 

Outro aspecto que pensando bem o filme acaba por não explorar bem – e seria mais complexo e interessante se o fizesse – foi dar atenção aqueles soldados que tinham na guerra um problema de base. Questionavam o que estavam ali a fazer e se estariam mesmo a combater os maus da fita. É que a personagem de Chris Kyle e, pelo que li, a pessoa em si, era um soldado patriota sem dúvidas sobre os motivos porque estava ali e que via tudo a preto e branco, bons (americanos) e maus (iraquianos). 

 

Não há grande – nenhuma mesmo – compaixão pelo povo do outro lado que também sofria. E sempre que há algum soldado com dúvidas, como acompanhamos de perto Kyle, o filme desvaloriza essa perspectiva tal como o próprio Kyle. Mostra essa perspectiva como se fosse uma mera cobardia sem interesse e, no entanto, era um ponto interessante e fulcral que podia dar uma dose extra de tensão e complexidade moral ao filme, que é demasiado republicano na forma de pensar a guerra, tal como a personagem.

me stephen, you jane. a vida dos Hawking, com física e ELA

A Teoria de Tudo. A Theory of Everything. 

23 janeiro. 

A arte imita a vida. Esta podia ser a máxima da edição dos Óscares deste ano, com cinco dos oito filmes nomeados para a categoria mais desejada a serem histórias reais. É esse o caso deste A Teoria de Tudo (nomeado para melhor filme, ator, atriz, guião adaptado e banda sonora), onde acompanhamos a vida em comum de Jane e o físico Stephen Hawking, desde os tempos da universidade, onde Stephen descobre que tem a doença degenerativa ELA (esclerose lateral amiotrófica).

É ainda enquanto jovem estudante, apaixonado por Jane, que ele descobre não só que tem esta doença como vai deixar de conseguir controlar o seu próprio corpo, incluindo a fala, e tem uma esperança média de vida de dois anos.

Como todos os bons filmes, esta história real tem o condão de nos deixar a pensar, imaginar e questionar a vida tão peculiar e rica que vimos passar em duas horas de filme. De uma situação impossível houve esperança, tal como diz Hawking a certa altura. E houve esperança nos anos de vida que vemos passar em filme, mas esperança com dificuldades incríveis, períodos sombrios, algum egoísmo próprio dos humanos e momentos brilhantes seja para a física como para as vidas daquelas pessoas.

 

Muito bem realizado por James Marsh, com conta peso e medida, as interpretações são notáveis num filme emotivo q.b.. Eddie Redmayne é cativante e brilhante como Hawking e é acompanhado na perfeição por Felicity Jones como Jane. A ver.

Mais sobre mim

imagem de perfil

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D